
Tônus e progesterona: em um campeonato masculino, as garotas do Atlético de Madrid foram campeãs invictas de seu grupo (Foto: Roberto Durán)
Definitivamente, 2009-10 é uma temporada a ser marcada na história do Atlético de Madrid. Depois de um começo incerto, o clube rompeu um hiato de mais de quatro décadas sem títulos internacionais, foi vice-campeão da Copa del Rey e, quase no apagar das luzes, até suas garotas proporcionaram alegrias: as garotas da equipe Alevín A do clube colchonero foram campeãs invictas de seu grupo, no torneio da categoria. Seria apenas mais uma conquista da base madrileña, não fosse por um detalhes: à parte a própria equipe B do clube, todas as outras equipes eram masculinas.
OI? No campeonato Alevín, as equipes são compostas por sete atletas, com idades entre 10 e 11 anos. O torneio é disputado regionalmente – o Atlético, claro, joga entre a comunidade de Madrid. Embora o torneio conte com versões masculina e feminina, e as “equipes mistas” sejam previstas em regulamento, o clube tomou a inusitada decisão de inscrever duas formações de garotas no campeonato formado apenas de times feitos com meninos. Enquanto ainda sonhava com a conquista, María Vargas, diretora do Atlético de Madrid Féminas disse apenas que “este é um esporte que todos podemos praticar”.
MENINAS MÁS. O Atlético de Madrid é um dos clubes que mais incentiva e ajuda a desenvolver o futebol feminino na Espanha; se a decisão de inscrever suas meninas para jogar contra garotos foi promocional ou contestadora, talvez jamais se saiba. O fato é que, rodada a rodada, as pequenas colchoneras, dirigidas pelo treinador David Fernández, faziam o que a maioria de seus adversários não conseguiam: marcavam gols e venciam. Em janeiro de 2010, quando a equipe já liderava seu grupo, o site português Mais Futebol as apresentou como “as meninas que estão fazendo dezenas de rapazes corarem de vergonha”.
A LIGA. Aída Ruiz, Raquel Poza, Yolanda Albalat, Laura Bravo, Sandra Calvo, Esther de Diego, Loreto Fabián, Clara García, Nerea García, Aura María Hoyos, Celia Espigares, Laura Muñoz, Luana Monroy e Carla Vizoso: estas são as garotas que, nas palavras da própria presidenta do Atlético de Madrid Féminas, Lola Romero, “fizeram história no Atlético de Madrid e no futebol feminino”.
No último jogo, contra o Villaverde Bajo, as garotas do Atlético de Madrid coroaram uma brilhante seqüência, em que não venceram apenas quatro jogos (os quais terminaram empatados): a goleada por 6×1 garantiu o título, a festa e a vaga para as finais, em que, a partir de 10 junho, as surpreendentes colchoneras enfrentarão outros 15 times, campeões de seus grupos – mais uma vez, todos compostos apenas por garotos.
FOME. No site oficial do Atlético de Madrid, a já citada María Vargas declarou que acredita em mais uma conquista. Segundo ela, as garotas entram na segunda fase com as mesmas possibilidades das outras equipes: “Quando as pessoas souberam que iríamos jogar contra times masculinos, disseram que estávamos loucas, que íam nos golear; mas, depois de vários anos, o momento chegou, e essas meninas são privilegiadas por vivê-lo. São um exemplo a ser seguido, não só no aspecto futebolístico, mas também pela superação e entrega feminina. Acho que a fase final será difícil, mas todas as equipes chegam com as mesmas possibilidades – afinal, todas terminaram em primeiro”. A opinião da diretora é a mesma de Laura Bravo, goleadora da equipe: “Queremos a dobradinha e vamos lutar por ela”.
ANTECEDENTES. “Misturar” meninos e meninas em um esporte que, na maioria dos países, de tão ligado à figura do homem, tornou-se símbolo de masculinidade, já foi um sonho mais difícil, mas ainda está longe de ser uma realidade aceita com tranqüilidade. Em 2003, o então presidente do italiano Perugia, Luciano Gaucci, declarou publicamente que desejava uma estrela do futebol feminino em seu elenco, e esta seria a primeira mulher a atuar na Serie A. Num primeiro momento, pensou-se em Birgit Prinz, fantástica jogadora alemã; mais tarde, o clube manteve contatos com a sueca Hanna Ljungberg, que chegou a fazer treinamentos com a equipe, mas foi impedida de jogar pela FIGC – embora, de fato, não constassem regras para inibir a presença de uma mulher na equipe titular.
O caso do Perugia foi o mais famoso, mas, de certa forma, desnecessário. Em alguns clubes, já há alguns anos, são as mulheres que mantêm o prestígio. O Eintracht Frankfurt, da Alemanha, é um exemplo: embora possa se vangloriar de uma UEFA Cup em seu currículo, o clube nunca teve outros feitos expressivos; seu time feminino, porém, venceu, repetidas vezes, o campeonato nacional e a versão feminina da Champions’ League. Em Sassari, na Itália, quem mantém o nome da cidade no topo é a equipe feminina do Torres, que sempre disputa títulos com o Bardolino, de Verona; os rapazes de Sassari tentam reeguer o clube, falido recentemente. Em 2009, a única alegria do Santos foi a presença da dupla Marta e Cristiane no ataque de seu time feminino, que não teve nenhuma dificuldade para conquistar a primeira edição feminina da Libertadores da América.
É inútil negar o poder e a influência das mulheres no trato com a gorduchinha, hoje em dia. De certa forma, sua insistência em praticar o futebol, mesmo sofrendo preconceito (que ainda é grande), faz lembrar os tempos românticos do esporte, quando ainda estava em seu começo, e despertava paixão e curiosidade quase em estado bruto. Portanto, boleiros, tomem cuidado: da próxima vez que em derem bola fora com a patroa, não só vão dormir no sofá como correm o risco de tomar um chapéu caprichado.
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