“Como embaixador global do esporte e Presidente de Honra do New York Cosmos, é um grande privilégio poder contribuir com o futuro do esporte que me deu tanto. O retorno do New York Cosmos irá inspirar os jogadores neste país e reunir pessoas no mundo todo que amam esse lindo jogo tanto quanto eu.”
Estas foram as palavras usadas por Sua Majestade, o Rei Pelé, no intervalo do jogo final da Copa NYC, em torneio de futebol local da cidade de New York, para anunciar a volta do New York Cosmos, o lendário clube americano de futebol no qual encerrou sua carreira, e que estava inativo há 26 anos.
UM SONHO. Em 1968, foi criada a antiga NASL – North American Soccer League, uma liga de futebol profissional que seria disputada entre clubes dos Estados Unidos e do Canadá. Como todos os projetos esportivos da América do Norte, a NASL tinha objetivos (financeiros, sobretudo) ousados, e chamou atenção de Steve Ross, então presidente da Warner – atual Time Warner – que resolveu criar, em 1971, um clube para tomar parte no torneio. Seu nome era New York Cosmos – abreviação de New York Cosmopolitans, uma denominação que refletia bem o espírito da cidade que representaria.
BUSINESS. Em países de natureza capitalista, é comum que as manifestações sejam organizadas e taxadas como grandes indústrias; nos anos 1970, a indústria esportiva da América do Norte já era grande, mas o nicho do futebol praticamente engatinhava.
Em seus primeiros, anos, o New York Cosmos foi “mais um negócio” do grupo Warner Comunications. O crescimento foi gradual e lento, como vagaroso, também era o desenvolvimento da própria NASL. Em 1972, o clube recebeu uma boa injeção de ânimo ao conquistar seu primeiro título.

Pelé puxa o New York Cosmos para o campo, nos anos 1970: a partir de Sua Majestade, criou-se um mito (Foto: dailymail.co.uk)
Em New York, mesmo com o título do Cosmos, a realidade do futebol permanecia morna e inalterada. E foi o próprio clube que mudou este panorama: em 1975, Pelé desembarcava na Big Apple para defender a camisa branca e verde do clube.
Oficialmente, Sua Majestade foi contratada para promover e divulgar o futebol, em New York, nos Estados Unidos e no Canadá. O efeito foi imediato: de um momento para outros, os 80 mil lugares do Giants Stadium ficavam lotados e o Cosmos passava a ser uma grande atração citadina, nacional, continental e mundial (exatamente deste modo: despertando níveis de atenção diferentes, mas com um apelo que mais parecia um “frenesi” generalizado).
A ESTRATÉGIA DA CONSTELAÇÃO. Muito antes do Real Madrid fazer estardalhaço com sua política “galáctica” de contratar estrelas, o New York Cosmos construía e executava sua estratégia de formar uma constelação.
Depois de Pelé, o Cosmos passou a contar com Chinaglia, Carlos Alberto Torres, Franz Beckenbauer, Eusébio, Johan Neeskens, Marinho Chagas, Romerito, Zmuda e, ainda que por um único jogo, Johan Cruijff.
Muitos desses jogadores atuaram em épocas diferentes, entre 1975 e 1984 (Pelé, por exemplo, encerrou a carreira em 1977), mas fizeram o New York Cosmos uma verdadeira máquina de títulos. Ao todo, foram sete: quatro conquistas na NASL, em 1977, 78, 80 e 82; e outra três vitórias na Trans-Atlantic Cup, nos anos de 1980, 83 e 84. Este handicap ainda faz do Cosmos o segundo maior campeão do futebol estado-unidense, atrás apenas do DC United.
DUAS VEZES NA VIDA. Em 1984, o Cosmos fez sua última partida em 26 anos. Sua marca foi adquirida por Giuseppe Pitnton e, nos últimos anos, aconteceram diversas tentativas de reviver o nome e a hereditariedade do clube.
Nada prosperou até que Paul Kemsley, ex-diretor do Tottenham Hotspurs, adquirisse o clube, em 2010. Aproveitando-se do sucesso recente do futebol estado-unidense em nível mundial – com o vice-campeonato na Copa das Confederações, a boa participação na Copa do Mundo, e a criação definitiva de uma estrela, o atacante Donovan – o New York Comos deu vida a um processo de reposicionamento de sua marca.
O conceito ainda é o mesmo que escreveu o nome de Pelé e tantas outras lendas na história do clube: promover e ajudar a desenvolver o futebol nos Estados Unidos. Os tempos, porém, são outros. E como não é possível contratar mega-craques de imediato, o novo Cosmos vai apostar nas categorias de base: o clube já adquiriu os direitos da Copa NYC, a mesma em que Sua Majestade anunciou o retorno do clube, com pretensões de que seja expandida territorialmente, agregando ainda mais comunidades esportivas; já está firmada, também, uma parceria com o BW Gottschee, um dos clubes americanos de maior prestígio no trabalho com jovens, que dará vida à “Cosmos Academy”, formada por equipes sub-12 e sub-18.
Estabelecidas suas bases, o New York Cosmos pretende retornar às disputas oficiais, na Major League Soccer, em que poderá reviver seus tempos de grande campeão e, ainda por cima, brindar a cidade com um derby contra o New York Red Bulls.
GRANDE, MAS É PRECISO SER MAIOR. O New York Cosmos volta para representar uma cidade ainda mais frenética do que deixou, 26 anos atrás. Hoje, New York é considerada a metrópole mais popular dos Estados Unidos e uma das mais sonhadas e ansiadas de todo o planeta.
Embora a Big Apple possua um representante na Major League Soccer, o New York Red Bulls, o hiato sem o Cosmos viu um sem par de outros esportes ganharem ainda mais relevância e conquistarem definitivamente os corações de sua gente. Apenas para ficarmos em alguns exemplos, a cidade possui representantes de alto nível em basquete (Knicks); hóquei (Rangers); futebol americano (Jets e os Giants); e beisebol (Yankees e os Mets).
Esta percepção é particularmente necessária em um país como os Estados Unidos, em que o esporte atinge os graus mais elevados de profissionalismo. O New York Cosmos renasce em meio a uma concorrência indireta feroz, a qual disputa cada centavo que o nova-iorquino reserva à indústria de esportes e lazer. Será um trabalho de paciência, de estratégia e, sobretudo, de paixão por uma verdadeira lenda recente do futebol. Os bons cosmos estão de volta.
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