
De “Tutto Vero” a “Tutto Nero”: em quatro anos, a Itália foi do título mundial à sua pior campanha na história das Copas (Fotos: Gazzetta dello Sport)
É difícil vencer um torneio de hoje com um time de ontem: a Itália descobriu isso da pior maneira possível e saiu de um título mundial, em 2006, para a sua pior campanha na história das Copas, em 2010.
Faltou à Itália ter as idéias claras. No final de 2006, Marcello Lippi deixou a então campeã do mundo e Roberto Donadoni assumiu, dando início a uma renovação necessária, interrompido após a má campanha na Euro 2008. Lippi foi chamado de volta e, com apenas dois anos de prazo, recomeçou o trabalho do zero; seu time, porém, teve muitos jogadores de 2006, já em decadência de jogo e forma física.
Não houve possibilidade (ou vontade) de renovar verdadeiramente a Itália, já muito envelhecida e, pelo que vimos no período pré-Copa, viciada pelo sucesso de 2006 – um exemplo sobre todos: o desastre na Copa das Confederações, que deveria servir de laboratório, e viu a Azzurra ser eliminada na primeira fase, vencendo apenas um jogo.
Em último lugar, faltou, e muito, humildade. Capitão de 2006, Cannavaro declarava que “ninguém defendia como a Itália” e, no final, foi na defesa que o time mais falhou. Lippi fez ainda pior ao dizer que “não havia deixado em casa ninguém que pudesse fazer a diferença”; entre eles, Totti e Cassano não foram chamados, e o meio-de-campo italiano agonizou durante quase todo o tempo. E isso só para ficarmos em dois exemplos.
Analisando as participações de todos, chegamos às seguintes conclusões:
Gianluigi Buffon. Há quatro anos, Gigì era o inconteste melhor goleiro do mundo. Muitos jogos e contusões depois, Buffon ainda se mostraria em forma, não fosse por uma inesperada hérnia de disco, que apareceu no intervalo da partida de estréia. Mais do que um goleiro de classe, a Itália perdeu um líder no campo. Mas ele, enquanto pôde, fez seu papel. REGULAR
Federico Marchetti. Foi chamado à emergência, quando Buffon não pôde mais atuar, e pagou a confiança com ótimas defesas. Um luxo para uma seleção que contava com Amelia na reserva. Talvez Marchetti não tenha sabido se impor como um líder – mas ele era um dos mais jovens e, de velhinhos experientes, a Itália estava cheia. ÓTIMO
Fabio Cannavaro. Cannavaro é o exemplo de que o tempo não volta para ninguém. Se em 2006 o capitão azzurro era intransponível, a ponto de ser considerado o melhor jogador do mundo, em 2010 ele não passou de uma caricatura do passado de glória. Suas antecipações, vistas com a serenidade (ou conformismo) de quem já sabe o resultado final, divertiram. Mas, no final das contas, a culpa: é dele, por sucumbir à idade; ou de quem o chamou para a seleção? GRAVEMENTE IRREGULAR
Giorgio Chiellini. Um dos azzurri de melhores esperanças foi, também, um dos que menos correspondeu às expectativas. O mundial de Chiellini é dificilmente julgável. Como toda a defesa, ele se deixou levar, ora pela confiança de quem joga com a história, ora com o pavor de quem percebe que a história não está ajudando. Ainda que ele seja jovem (apenas 25 anos) esperava-se mais. IRREGULAR
Domenico Criscito. Criscito repete Chiellini, com atenuantes e agravantes: é mais jovem, mas também esportivamente mais maduro. Fez-se encontrar muitas vezes fora de posição ou correndo com a bola sem o menor propósito. Depois de sua poli-valência em quase todas as categorias profissionais do calcio, essa era a sua grande chance. Provavelmente terá outras, mas o primeira impacto foi IRREGULAR .
Christian Maggio. Maggio teve apenas 45 minutos de jogo, justamente os últimos da Itália na Copa, contra a Eslováquia. Ao vê-lo em campo, deu vontade de bater em Lippi por não o ter chamado antes. Em pouco tempo, Maggio mostrou que servia apenas um pouco de energia nova para que a defesa italiana jogasse normalmente. Terá cometido alguns erros, mas seu juízo é plenamente REGULAR.
Gianluca Zambrotta. Um dos pensionários de Lippi. Zambrotta, se comparado ao que era, quatro anos atrás, faz pena. Nunca uma boa jogada, nunca um cruzamento em velocidade, nunca um passe minimamente decente. Lembramos do belo chute, de fora da área, contra a Nova Zelândia, e nada mais. Por muitas vezes, pareceu nervoso. Vista a figura que apresentava, é compreensível. GRAVEMENTE IRREGULAR
Mauro Camoranesi. Quando Lippi resolveu abrir seu asilo, Camoranesi foi um dos primeiros nomes que surgiram. As expectativas eram baixas; mas, surpreendentemente, o bom Mauro, ainda que abusando das faltas, lembrou-se que é um jogador de futebol (algo que os torcedores da Juventus não viram, durante toda a temporada) e suas participações deram um pouco de vida ao combalido meio-campo italiano. Sua despedida foi digna. REGULAR
Gennaro Gattuso. Gattuso é o mesmo de sempre: um motivador, que luta por cada centímetro de campo. Muito útil quando a equipe, com excesso de técnica, precisa de uma sacudida moral. Inútil nesta Itália, em que o jogo não apareceu. Gennaro teve apenas um tempo à disposição e, fora suas faltas e o sagrado cartão amarelo de cada jogo, não conseguiu provar mais nada. IRREGULAR
Claudio Marchisio. Marchisio é um padano “puro-sangue”, a ponto de, no último amistoso antes da Copa, substituir “schiava di Roma” por “Roma ladrona”, durante o hino italiano. Não podemos dizer com certeza se suas tendências separatistas afloraram, mas parece claro a todos que o garoto, ainda que dono de bons dotes, não se empenhou o bastante. Gostaríamos de comparar sua Copa às eventuais futuras atuações pela Padania. GRAVEMENTE IRREGULAR
Riccardo Montolivo. Montolivo é sensível à atmosfera. Quando a equipe está acesa e confiante, ele é um demônio, correndo, armando jogadas e até batendo para o gol. Quando, porém, o jogo não é bom, ele não se faz de rogado, e cai no baixo nível de todos. Suas qualidades são indiscutíveis, mas o aspecto da moral dentro de campo precisa (e muito) ser trabalhado. IRREGULAR
Simone Pepe. Uma das invenções de Lippi, que funcionou muito melhor quando Di Natale estava em campo. Pepe não é um mau jogador. Infelizmente para ele, conduzir esta Itália ao ataque era trabalho para um fenômeno. IRREGULAR
Andrea Pirlo. Pirlo se contundiu pouco tempo antes da estréia e, desde então, passou a ser aclamado como o salvador da pátria. Todos comentaram o quão diferente seriam os jogos contra Paraguai e Nova Zelândia se ele estivesse em campo. Contra a Eslováquia, Lippi o utiliza por menos de um tempo e, em alguns lances, ele demonstrou que, se a Itália o tivesse em forma desde o início, a história poderia ser outra. REGULAR
Daniele De Rossi. Depois da grande temporada na Roma, ninguém tinha dúvidas: 2010 seria a Copa de De Rossi. Felizmente ele ainda é jovem e poderá se resgatar a tempo para 2014. E isso já diz muito sobre sua participação, que nem o gol contra o Paraguai pôde resgatar. GRAVEMENTE IRREGULAR
Antonio Di Natale. É possível que o artilheiro do campeonato nacional, com quase 30 gols, sente-se no banco? Para Lippi, tanto era possível que Totò passou um jogo e meio sem o mínimo contato com a bola. Quando esteve em campo, sua contribuição foi boa, com passes e um gol. No final, ficou a sensação de uma grande oportunidade desperdiçada – certamente não por sua culpa. BOM
Alberto Gilardino. Você o viu? PÉSSIMO
Vincenzo Iaquinta. Gostaríamos de dar a ele o mesmo juízo de Gilardino; mas, infelizmente, fomos obrigados a ver Vincenzo Iaquinta, mais um dos campeões que se perderam pelo caminho. Ele não conseguiu demonstrar jogo e presença nem por um minuto. Mesmo assim, a confiança de Lippi no jogador era tão grande que, no último jogo, quando seria natural substitui-lo por Di Natale, o técnico preferiu deixá-lo como o centro de um tridente ofensivo que não deu um só chute no gol por 45 minutos. Mais uma das amizades que arruinaram a Itália. PÉSSIMO
Giampaolo Pazzini. Pazzini teve menos de meia-hora de jogo. Se confrontarmos esse tempo com os 20 gols que marcou pela Sampdoria na temporada, sua média seria de um gol a cada quase um minuto e dez segundos. Um centro-avante de ofício, oportunista, sacrificado na fogueira cooperativista das vaidades de Lippi. Um verdadeiro pecado. Por isso, quisemos falar sobre ele, mas vamos deixá-lo SEM JULGAMENTO.
Fabio Quagliarella. Quagliarella ainda é o mesmo da Fiorentina, da Sampdoria, da Udinese e, agora, do Napoli: um atacante verdadeiro. Mais um dos bons do time, que foram relegados ao banco por Lippi. A condicional não cabe no futebol, mas temos certeza de que se Quagliarella estivesse em campo contra a Eslováquia desde o primeiro minuto, ao menos o empate (e a vaga) viria. Seu gol foi um dos mais bonitos da Copa, ainda que inútil para o objetivo final. BOM
Marcello Lippi. Há quatro anos, Marcello Lippi era conhecido como “Il Gladiatore”. Hoje, seria atirado, com méritos, para os leões do Colosseo. É inacreditável que um técnico como ele, experiente e vencedor, não tenha sentido urgência em renovar um ambiente viciado e acomodado pela vitória de 2006, mesmo depois da passagem sem brilho de Donadoni (a quem substituiu) e do desastre na Copa das Confederações. À fúria de ser o comandante implacável, Lippi deixou que sua autoconfiança e – pior – sua arrogância determinassem qual Itália o mundo deveria assistir. Jogadores importantes ficaram em casa. A dispensa de Andrea Cossu, mesmo com Pirlo fora de combate, foi uma indecência. Os craques também foram desprezados. Fala-se de coerência ao deixar Totti de fora, após este recuar em sua aposentadoria pela seleção, no meio das eliminatórias; ora, a Itália não é o Brasil: se um jogador desse nível se põe à disposição, deve ser chamado imediatamente. Fala-se, também, que Lippi quis conservar o espírito de grupo ao não chamar Cassano, notadamente um jogador de temperamento forte; se a meta era conservar este espírito derrotista, de fato, ele teve razão. Em quatro anos, Marcello Lippi levou a Itália de um título mundial à sua pior campanha na história das Copas. Um líder negativo que, ao final de tudo, soube apenas dizer: “A culpa foi minha. Preparei mal a equipe”. Um grande exemplo de como macular uma linda história. PÉSSIMO
Não participaram: Morgan De Sanctis, Salvatore Bocchetti, Leonardo Bonucci e Angelo Palombo.
Leia Mais:

