Com a confirmação do título mundial para a Espanha, muitos países se candidatam a ser a próxima “seleção do quase”; e se em outras classificações a Inglaterra não vai muito bem, neste é líder isolada.
Dizem que um cenário de destruição é um ótimo campo para que aconteça um milagre. Fábio Capello chegou à seleção inglesa, desmoralizada após a não-classificação para a Euro 2008, e, em pouco tempo, conseguiu levar esperança ao english team. Por um momento, sua equipe fez crer a todos que o tão aclamado “milagre inglês”, esperado ansiosamente após a constrangedora vitória na Copa de 1966, aconteceria.
O time da terra da Rainha, porém, teve de enfrentar outros adversários: contusões importantes; uma crise de relacionamento, envolvendo o então capitão John Terry, que quase virou um caso nacional; e, mais uma vez, a insegurança de, mesmo com um bom time, repetir campanhas decepcionantes, realidade com que a Inglaterra convive há anos.
Analisando as participações de todos, chegamos às seguintes conclusões:
Robert Green. Deveria ser o terceiro goleiro inglês, mas, com as contusões de Hart e James, foi chamado para a primeira partida, em que engoliu um frango histórico. Mostrou-se inseguro e não passou muita confiança à defesa. Na certa, não esperava jogar. GRAVEMENTE IRREGULAR
David James. Nos últimos jogos da Premier League, ficou conhecido como “James Calamidade”, após sofrer um sem número de gols. Assumiu as redes inglesas a partir do segundo jogo e não teve o menor trabalho até as oitavas de final, contra a Alemanha, em que não pôde fazer nada além de evitar uma goleada maior. Mostrou um pouco de indecisão nas saídas do gol. REGULAR
Jamie Carragher. Teve apenas a estréia à disposição e se mostrou muito bondoso com os adversários, concedendo espaços e afrouxando na marcação. Talvez nervosismo. Talvez pressão. Talvez ele seja exatamente o que mostrou. Por provocar incertezas até sobre sua postura de jogo, vamos considerá-lo GRAVEMENTE IRREGULAR.
Ashley Cole. Apenas regular na defesa e absolutamente ausente no ataque. Nem pareceu o grande jogador que é. Tê-lo em campo, ou não, não faria a menor diferença. PÉSSIMO
Glen Johnson. Johnson é mais defensivo que ofensivo, embora sempre se arrisque bem no ataque. Um pena que, nesta Copa, ele tenha se limitado à “burocracia” da defesa e se aventurado pouco à frente. Em algumas oportunidades, o esquema de Capello pareceu “amarrá-lo” um pouco em seu setor. Esperava-se mais. IRREGULAR
Ledley King. Jogou apenas uma vez (meio-tempo, na estréia). Uma pena, pois se mostrou completamente ligado no jogo, dando combate e quase sempre ganhando dos adversários. Com mais tempo, poderia confirmar seus recursos. BOM
John Terry. O pivô de uma grande crise de relacionamento, que poderia ter rachado a equipe, mostrou que o comportamento no campo é mais importante que a intimidade. Terry foi um ponto de destaque, sempre presente em todos os confrontos, no chão e no alto, e sempre vencendo a maioria. Como toda a defesa, foi envolvido pelo ataque alemão, nas oitavas – um erro de módulo de jogo. REGULAR
Matthew Upson. Um batalhador. O que não significa ser um jogador de categoria. Upson tem méritos pela vontade, mas fica devendo muito durante o jogo. Suas intervenções na zaga foram pouco seguras e, algumas vezes, encontrava-se fora de posição – um pecado mortal para uma equipe deveria ser tão pragmática. A seu favor: salvou o gol de empate da Eslovênia, que eliminaria a Inglaterra na fase de grupos. Também fez um gol contra a Alemanha, renovando o ânimo da equipe por algum tempo – porém, falhou no primeiro gol germânico. IRREGULAR
Gareth Barry. Nulo. Defendeu sempre mal quando o time estava atrás (o jogo contra a Alemanha é de cineteca) e não conseguiu desenvolver uma só jogada ofensiva, nem um esboço. GRAVEMENTE IRREGULAR
Joe Cole. Ele poderia ser uma arma a mais, o “homem que você não esperava”; mas, nas duas vezes em que entrou, não foi capaz de alterar a dinâmica da ofensiva inglesa. Um desperdício, pois Cole é um jogador de qualidade e, em meio aos “lapsos de memória” de alguns de seus companheiros, ele teve muito espaço para fazer seu jogo brilhar, ainda que em pouco tempo. Não conseguiu. GRAVEMENTE IRREGULAR
Steven Gerrard. Como quase sempre acontece, Gerrard desaparece em jogos decisivos – e como na Copa do Mundo todos os jogos valem muito, podemos imaginar o que (não) foi a sua participação. Sim, ele marcou o gol contra os Estados Unidos; mas, quando as partidas se fizeram difíceis, ele se mostrou sem criatividade ou tônus, e confundiu agilidade com pressa. Teve uma atuação um pouco melhor contra a Eslovênia, ajudado por Rooney e Lampard, mas se mostrou sempre incapaz de assumir a responsabilidade. GRAVEMENTE IRREGULAR
Frank Lampard. Ainda vai se discutir muito se Lampard e Gerrard são compatíveis numa mesma equipe. O que não se pode discutir, porém, é a entrega de Frank ao time, nos bons e maus momentos. Não teve, nem de longe, uma ótima participação, mas por ter a iniciativa de armar alguma coisa com o ataque inglês, salva-se. Quem sabe o que teria acontecido se o seu gol, que empataria o jogo contra a Alemanha, tivesse sido validado? REGULAR
Aaron Lennon. Eis aí um jogador difícil de entender: afinal, o jogo dele é correr para receber na frente ou passar para que os outros recebam? Pelo que vimos, dá para dizer que a verdade está justamente no meio, ou seja: nem uma coisa, nem outra. Conseguiu uma boa jogada contra os Estados Unidos e nada mais. GRAVEMENTE IRREGULAR
James Milner. Se somarmos a sua boa atuação contra a Eslovênia aos desastres contra Estados Unidos (sobretudo) e Alemanha, chegaremos tranqüilamente à conclusão que Milner é melhor batendo que jogando bola. Os que conhecem o jogador sabem que esta é uma inverdade – mas, como isso não foi demonstrado na Copa, seu juízo só pode ser GRAVEMENTE IRREGULAR.
Shaun Wright-Phillips. Ao ver a Copa de Wright-Phillips, tem-se a nítida impressão de que ele foi convocado por falta de opção. Como sempre, mostrou-se uma completa nulidade, com ações previsíveis e tiros a gol que ultrapassaram os limites da decência. E, se ele estava jogando em seu máximo, a culpa, sem dúvida, cai sobre o comando técnico. PÉSSIMO
Peter Crouch. Nesta Inglaterra, que não conseguia progredir em velocidade, um grandalhão como Crouch poderia ser um diferencial, no mínimo, pelo jogo aéreo. Capello lhe dá apenas duas chances, e sempre no segundo tempo das partidas. Quem sabe se, com ele sempre na área, os lançamentos no vazio de Gerrard ganhariam algum sentido. Foi claramente mal aproveitado. REGULAR
Jermain Defoe. Mesmo não sendo dono de grandes recursos, Defoe foi incansável e voluntarioso. Se por um lado isso demonstra entrega, por outro explicita que muitas ações ofensivas da Inglaterra não foram mais adiante também por sua causa. Evitou um vexame muito maior ao marcar o gol que garantiu o english team nas oitavas de final – o ponto alto seu mundial, que começou confuso e terminou apagado. IRREGULAR
Emile Heskey. Trombador e um pouco desajeitado, alternou momentos muito participativos com sumiços constrangedores. É verdade que ele não recebeu muitas bolas para disputar com os marcadores, mas ficar apenas esperando os movimentos do time também não ajudou em nada. Fez seu papel um pouco abaixo da média. IRREGULAR
Wayne Rooney. Rooney sofreu uma contusão grave poucos meses antes da Copa e foi para a África do Sul. Estava longe de sua melhor condição física, claramente sem ritmo de jogo. E, mesmo assim, não foi poupado por Capello em nenhuma partida. Se comparado com o atacante arrasa-quarteirão que é, no Manchester, Rooney sequer estreou; mas não podemos dizer que ele não se esforçou, como no jogo contra a Eslovênia, em que, com um pouco mais de liberdade, levou o terror à retaguarda adversária por alguns instantes. IRREGULAR
Fabio Capello. Capelo chegou à Inglaterra em meio a um clima de terra arrasada, pela não-classificação para a Eurocopa de 2008. Em dois anos, ele revolucionou a seleção e criou uma expectativa sobre o english team como há muito não se via. O time inglês, no entanto, sempre foi apenas regular e, se a imprensa e os torcedores achavam o contrário, Capello tinha a obrigação de compreender as limitações com que trabalhava. Pode-se dizer que as crises de relacionamento (o já célebre caso de John Terry) e as contusões de jogadores importantes (Beckham, Rooney, Bridge etc), fatos alheios a seu trabalho, comprometeram suas possibilidades. Por outro lado, Capello se mostrou abaixo de seus recursos na leitura dos jogos e inseguro para tomar decisões importantes, como: definir quem seria o goleiro da equipe; preservar Rooney, claramente sem condições totais; sacar Gerrard das partidas; e privilegiar a construção de jogo em volta de Lampard. Sua Inglaterra se perdeu num pragmatismo que virou burocracia, e foi, por longas linhas, um retrato da seleção nacional que se apequena cada vez mais, desde 1990, e não diverte seu público nem desespera seus adversários – fato que se deve em muito à ausência de bom material humano inglês na Premier League, mas também à pouca perícia do técnico italiano em procurar fazer as coisas simples. GRAVEMENTE IRREGULAR
Não participaram: Joe Hart, Rio Ferdinand, Stephen Warnock e Michael Carrick.
Leia Mais:

