Argentina 0×4 Alemanha
Quem não soubesse que o estádio Green Point, na Cidade do Cabo, havia sido finalizado antes do início do mundial, poderia até pensar que a partida entre Argentina e Alemanha, válida pelas quartas de final da competição, fosse parte das obras: o jovem e insinuante time alemão aprontou das suas mais uma vez, e asfaltou a Argentina, de Messi, de Tevez, de Higuaín e (sobretudo) de Maradona. Um desfecho esperado por alguns – a vitória da Alemanha – mas de forma surpreendente. Afinal, Alemanha e Argentina, ao longo da história têm sido artífices de confrontos tão históricos quanto importantes. Juntos, eles decidiram duas Copas: os argentinos triunfaram em 1986, e os alemães, meses após a re-unificação de seu país, se vingaram, em 1990. No último mundial, os dois se encontraram justamente nas quartas de final e a Alemanha precisou dos pênaltis para seguir em frente, num jogo dramático.
Em 2010, os argentinos chegaram para o confronto embalados por uma campanha melhor (100% de aproveitamento, enquanto os alemães já haviam perdido uma partida) e pelo sucesso da “filosofia maradoniana” de jogar sempre em busca do ataque; um êxito grande o bastante para fazer com que todos – inclusive Maradona – esquecessem-se de quão frágil era a defesa porteña. A Alemanha, forte da goleada aplicada na Inglaterra, dosava defesa e ataque na medida exata.
Joachin Löw, o técnico alemão, sabia que a melhor forma de lidar contra um time de puro ataque é atacá-lo primeiro. Assim foi, e seu time precisou de apenas três minutos para abrir o placar: Schweinsteiger cobrou uma falta da direita para a área, onde Müller subiu, na frente do marcador Otamendi, e cabeceou para baixo; a bola parecia defensável, mas o goleiro Romero se posicionou mal e viu a bola resvalar em sua perna, ao invés de suas mãos, e morrer na rede.
Em desvantagem no placar pela primeira vez na Copa, a Argentina entrou em pane nervosa. A defesa, principalmente pela esquerda (o setor de Otamendi) inexistia, com Özil e Podolski muito à vontade para tentar seus lances de feito. O ataque pecava pela afobação: Messi tentava se livrar de uma marcação sob pressão implacável, que complicava toda a saída ofensiva da Argentina, enquanto Tevez e Higuaín se mostravam numa jornada não muito feliz. Apenas Di Maria tentava tentava incomodar a defesa germânica, sem grande sucesso. A Alemanha, por outro lado, exalava eficiência: aos 23 minutos, Müller marcou Heinze sob pressão e o induziu ao erro; a bola foi roubada e rolada na área para Klose, que bateu por cima, livre de marcação.
A partir dos 30 minutos, a Argentina passou a ter um pouco mais de posse de bola, mas seguia com dificuldades para criar jogadas. Messi lutava, chagava a driblar alguns adversários mas era sempre neutralizado antes do último ou penúltimo passe. Muito acionado, Di Maria insistia tanto pela direita quanto pela esquerda, conseguindo arrumar alguns escanteios que, depois, não levariam perigo. A grande chance argentina aconteceu aos 36 minutos: Messi bateu uma falta na barreira e, no rebote, Heinze lançou Tevez, que rolou para Híguaín marcar; todos, porém, já estavam impedidos e o lance foi corretamente anulado.
No segundo tempo, logo aos três minutos, Di Maria se apresentou mais uma vez no ataque e, por pouco, não foi decisivo: seu chute, de fora da área, passou tirando tinta da trave de Neuer. Diferente da primeira etapa, a Argentina estava mais calma e melhor disposta sobre o terreno de jogo. Assim como fez com a Inglaterra, a Alemanha esperava, pacientemente, a chance de dar o bote. Até lá, ocorria resistir ao assédio porteño, que crescia: Tevez, Messi e Higuaín arriscavam, algumas vezes com perigo; Di Maria, porém, ainda era mais objetivo: aos 17 minutos, a partir de um cruzamento seu, a bola sobrou na área para Tevez, que bateu convicto – mas a bola encontrou o rosto de Mertesacker no caminho.
Com Di Maria tão solicitado na frente, era óbvio que Otamendi seria o único a cobrir o lado direito da defesa argentina: era por lá o caminho da Alemanha. Aos 23 minutos, a Alemanha marcou pressão na saída de bola da Argentina. Müller disputou com a zaga argentina, ganhou, caiu e, no chão, rolou na frente para Podolski, que entrou sozinho pelo lado esquerdo da área; Klose esperava pelo meio e foi servido para marcar o segundo gol. A partir daí, a pane Argentina voltou por completo. Dieguito não tinha o que fazer – além de pegar um uniforme e entrar em campo: sacou Otamendi e mandou Pastore para o jogo, mas a Argentina já estava confusa.
A Alemanha não teve piedade. Aos 30 minutos, Schweinsteiger apontou um salceiro pela lado direito da defesa argentina, foi para o fundo e rolou para trás, onde Friedrich que, mesmo dividindo com Demichelis, completou para o gol, com Romero já fora da jogada. Não havia dúvidas de que já estava feito. A Argentina insistiu, mais por brio do que por convicção, e Pastore conseguiu alguns bons lances, mas os arremates impensados, as jogadas mal trabalhadas – enfim, o desespero – não permitiam que os comandados de Maradona pretendessem qualquer coisa de melhor ou mais honroso.
Já os alemães, embalados por todo o bom cinismo que o futebol pode oferecer, não tiveram compaixão de seu adversário: aos 44 minutos, Özil e Podolski trocaram dois passes longos entre si, desde a defesa até o campo de ataque; sempre pela esquerda, Özil cruzou na área, na medida para Klose, de primeira, marcar o quarto gol da partida, o seu décimo-quarto em Copas do Mundo, o (até agora) segundo maior artilheiro de sempre.
Foi um massacre. Uma surra. Um asfaltamento. Uma demonstração empolgante de que a escola alemã, uma das melhores do mundo, incorporou novas disciplinas vencedoras em seus métodos. Uma demonstração de que não basta um grande motivador como Maradona para fazer um time vencedor. O melhor futebol passou de fase e sonha com a final.
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