Durante as experiência de estágio que tive tanto no Handebol quanto no Futsal observava alguns comportamentos de atletas os quais sempre achei muito interessantes e curiosos quando ocorriam, os Comportamentos Supersticiosos. Então decidi que faria meu trabalho de conclusão de curso sobre este tema. De forma resumida falarei um pouco sobre esta pequena mostra.
Singer (1977) afirma que o comportamento supersticioso pode ser extremamente significativo em melhorar o desempenho e quando não reforçado é abandonado, ou seja, o atleta ao realizar um comportamento supersticioso se este obtém um bom desempenho, vence um jogo ou uma competição, etc, então mantém tal comportamento pois foi reforçado positivamente por situações de vitória, bons desempenhos entre outros, porém se não ocorrerem resultados positivos, a superstição é abandonada, não é repetida.
O objetivo deste estudo foi de investigar e analisar se atletas masculinos das modalidades de Handebol e Futsal apresentam comportamentos supersticiosos e em quais momentos estes comportamentos ocorrem.
Dois participantes, sendo um de cada modalidade, além de responderem ao questionário também participaram de uma entrevista onde busquei identificar variáveis da história de vida dos participantes que pudessem controlar, no sentido de aumentar ou diminuir, a frequência dos comportamentos supersticiosos.
Após a coleta dos dados, foi realizada uma análise mais aprofundada dos comportamentos que buscou identificar a função destes comportamentos para os atletas.
Os resultados mostraram que dentre os atletas de handebol que responderam ao questionário, apenas 33% afirmaram apresentar comportamentos supersticiosos. Entretanto, quanto aos atletas de futsal que responderam ao questionário, 60% afirmaram que apresentam comportamentos supersticiosos.
Abaixo será apresentada a relação de comportamentos supersticiosos dos atletas ocorridos antes, durante e depois das partidas de ambas as modalidades:
Tabela 1. Correspondente a emissão de comportamentos supersticiosos ocorridos antes das partidas.
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Handebol
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Futsal
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Entrar com pé direito ou esquerdo na quadra
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Entrar com pé direito ou esquerdo na quadra
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Rezar
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Rezar
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Falar consigo antes do jogo
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Fazer sinal da cruz
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Bater na trave antes do jogo
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Dar três pulos
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Ouvir música antes do jogo |
Tabela 2. Correspondente a emissão de comportamentos supersticiosos ocorridos durante as partidas.
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Handebol
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Futsal
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Uso de “vestimenta da sorte” (camiseta, meia clara, meia escura, determinada cueca)
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Uso de “vestimenta da sorte” (camiseta, meia clara, meia escura, determinada cueca)
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Rezar
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Fazer sinal da cruz
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Tabela 3. Correspondente a emissão de comportamentos supersticiosos ocorridos depois das partidas.
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Handebol
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Futsal
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| Rezar | Rezar |
| Fazer sinal da cruz | |
| Sair com pé direito ou esquerdo |
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É possível notar diferença entre os comportamentos dos atletas de handebol e de futsal, pois parte dos comportamentos dos atletas de handebol estão ligados às regras próprias como, por exemplo, “ouvir músicas nos momentos que antecedem os jogos”. Nota se na Tabela 1. que ocorreu uma resposta descrita por: “falar consigo mesmo antes dos jogos”, tal comportamento é definido pela Análise do Comportamento como “auto fala”, que parece adequado neste caso, pois se enquadrou ao comportamento desejado pelo atleta, que o manteve. Ao utilizar a auto fala o atleta dá a instrução para si mesmo sobre o que fazer em determinadas situações, SKINNER (1969 apud SCALA e KERBAUY 2005) pressupõe então que a auto fala manteria o comportamento desejado, evitando interferências de variáveis do ambiente que não estão sob controle do indivíduo.
Enquanto isso os comportamentos dos atletas de futsal estão ligados à regras culturais como: fazer o sinal da cruz. Couto (2008) explica que para uma criança do sexo masculino no Brasil, gostar de futebol acaba se tornando uma enorme pressão, sobretudo por parte de pais, tios, avôs, amigos, etc, para que o garoto primeiramente jogue futebol e, num segundo momento, para que ele se torne um fanático torcedor das cores do time de sua preferência. Sendo assim o futsal, como o futebol, é um esporte que influencia os comportamentos supersticiosos através de descrições verbais que são as regras aprendidas, reforçadas e controladas que instruem uns aos outros por meio de: ordens, exigências implícitas ou explicitas, e do próprio contexto em que o individuo está inserido e as formas de aprendizagem adquiridas.
Zagallo e seu inseparável número 13: Superstição total
A partir das entrevistas foram identificadas na análise específica, as respostas de dois atletas, um de cada modalidade que apresentaram respostas referentes à mesma variável, no caso, o uso da mesma vestimenta em jogos.
Tabela 4. Apresentação das frases relatadas pelo Atleta 1. sobre o início de seus comportamentos supersticiosos
| HANDEBOL – ATLETA 1 |
| 1- “Com 17 anos fui convocado pela 1ª vez para a seleção juvenil, porém quando cheguei lá para treinar senti que não estava rendendo como esperava e fiquei muito mal. Então quando chegou o 1º jogo, usei meias escuras pela primeira vez e neste jogo fui muito bem. Durante o campeonato inteiro usei as meias escuras e ganhamos todos os jogos porque acredito que elas me deram sorte. Uso meias escuras em todos os jogos ainda.” |
| 2- “Quanto a ouvir músicas antes dos jogos começou também na época em que era da categoria juvenil pois ouvia música pelo celular ou mp3, pois acredito que as batidas do rock pauleira fazem com que eu me concentre mais rapidamente para jogar”. |
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O comportamento do atleta 1.. pode ser descrito por uma relação acidental pois ele observou que após utilizar meias pretas obteve bom desempenho no jogo. O comportamento acidental é aquele resultante do aumento de frequência do comportamento sem haver relação de dependência com o estímulo, ou seja, neste caso, não há relação alguma entre o jogo a utilização de meias pretas.
Já o comportamento de ouvir música neste contexto é um estímulo, pois ouvir música “pauleira” antes dos jogos faz com que se concentre mais rapidamente. Um consultor em psicologia do esporte em seus estudos identificou que a música pode influenciar o humor, elevando potencialmente os seus aspectos positivos, como a energia, entusiasmo e felicidade, e reduzindo a depressão, tensão, fadiga, raiva e confusão. Desta forma, para o atleta 1. o comportamento de ouvir música antes dos jogos é mantido pela consequência de “se concentrar mais rapidamente para o jogo”.
Tabela 5. Apresentação das frases relatadas pelo Atleta 2. sobre o inicio de seus comportamentos supersticiosos.
| FUTSAL – ATLETA 2 |
| 1- “Desde os 07 ou 08 anos fazia sinal da cruz porque minha mãe me ensinou a fazer e entrava com o pé direito em quadra porque via os atletas mais velhos fazendo isso. Um dia percebi que isso me dava força no jogo”. |
| 2- “A superstição da cueca branca começou no dia que eu ia jogar a semi final de um campeonato há dois anos atrás, percebi que em todos os jogos que ganhamos daquele campeonato usei a mesma cueca branca. A partir daí uso esta mesma cueca em todos os jogos, só quando está lavando eu não uso, e já aconteceu de eu ter um jogo muito importante num campeonato e não usar esta cueca e nesse dia deu tudo errado, cheguei atrasado, fui mal no jogo, perdemos”. |
| 3- “A superstição de não deixar meu pai ver os jogos é porque desde criança ele nunca me viu ganhando um jogo porque em todos que ele foi, meu time perdeu. Então peço pra ele não ir aos jogos”. |
| 4- “Superstição da caneleira invertida faz pouco tempo que faço porque uma vez inverti antes de um jogo e ganhamos, joguei muito”. |
| 5 “A superstição de usar faixas no pulso é porque quando coloco me sinto mais forte não sei porque e sempre jogo bem quando uso, comecei a usar as faixas há uns dois anos”. |
| 6 “Uso cadarços diferentes porque uma vez comprei uma chuteira que o cadarço não apertava a chuteira então troquei de cadarço e fui muito bem naquele dia, fiz muitos gols. Faço isso sempre de dois anos pra cá também”. |
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É possível observar a influência dos comportamentos mantidos por regras culturais em sua carreira. Em seu primeiro relato em que diz ter aprendido a fazer o sinal da cruz com sua mãe e a entrar com o pé direito em quadra depois de observar atletas mais velhos fazendo isso, a instrução passada pela mãe de fazer o sinal da cruz em jogos obteve bons resultados ao emitir tal comportamento, assim como o ambiente em que vive possibilita que esteja em contato com outros atletas de outras categorias, desta maneira observou que atletas mais velhos entravam com o pé direito em quadra, e também passou a entrar acreditando que ao emitir este comportamento poderia obter também bons resultados em sua carreira. Desta forma os comportamentos supersticiosos do atleta que são mantidos por regras se mantém pelas consequências que geram bons desempenhos e vitórias em jogos.
Já os outros comportamentos descritos pelo atleta são comportamentos que possuem uma relação de contiguidade, pois não há relação entre resposta e eventos, são reforçados acidentalmente como a situação de utilizar a mesma cueca branca em jogos.
Este fato ocorreu em situação de campeonato, e após uma observação no jogo da semifinal, notou que utilizou a mesma cueca em todos os jogos que sua equipe venceu, ou seja, não há relação entre o campeonato e a cueca, porém o atleta acredita que a cueca influenciou nas vitórias da equipe, assim como a presença do pai em seus jogos, não há relação entre a presença deste e a derrota de sua equipe, porém acredita que se o pai estiver vendo o seu time, irão perder o jogo, como também os outros comportamentos descritos no quadro acima, estes comportamentos não passam de uma relação meramente acidental, em que o atleta acredita e mantém os comportamentos, pois através deles, obtém bons desempenhos e vitórias.
Concluindo, foi verificado neste pequeno estudo que os comportamentos supersticiosos em sua maioria apresentados pelos atletas estão sobre controle de reforçamento acidental, bem como descrito na literatura por Skinner (1953-2000), pois os atletas descrevem situações de sucesso quando emitiram tais comportamentos. Verificou-se então que os atletas atribuem o sucesso e o bom desempenho nas jogadas a estes comportamentos supersticiosos, o que muitas vezes não permite que identifiquem qual de fato seja o desempenho adequado numa determinada jogada que os façam acertar ou identificar aqueles comportamentos que os levam a errar. Identificando os comportamentos adequados ou inadequados numa determinada jogada poderia corroborar com o aprimoramento das jogadas realizadas pelos atletas.
Além disso, pôde-se observar que atletas que emitem com maior frequência comportamentos supersticiosos podem acabar deixando de confiar em seu próprio desempenho e performance no ambiente esportivo em que estão inseridos, pois acabam sempre acreditando que comportamentos supersticiosos se mantidos irão influenciar com eficácia para que emitam bons comportamentos, entretanto, se tais comportamentos influenciam no cotidiano do atleta de modo a lhe causar insucesso, é necessário que este, seja orientado para que tal comportamento seja extinto para não lhe causar maiores danos em seu desempenho.
Neste sentido, a psicologia do esporte e a análise do comportamento podem contribuir juntamente a estes atletas na orientação sobre a importância da competição, o quanto é necessário arriscar, ganhar e também perder, porém com comportamentos adequados às jogadas sem influências de comportamentos mantidos acidentalmente, pois desta forma os atletas tendem a se tornarem mais autoconfiantes e determinados não só no ambiente esportivo como também em sua vida particular.
Técnicos e treinadores podem auxiliar o trabalho do psicólogo neste sentido observando se estes comportamentos interferem no desempenho dos atletas que o emitem tanto quanto para o sucesso como para o insucesso. Assim o psicólogo dentro do treinamento psicológico irá realizar intervenções junto a estes atletas na modificação de estados psíquicos que não estejam auxiliando em seu desenvolvimento esportivo.
E você, tem alguma Superstição?
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