
Um estádio sem time: pela segunda vez em cinco anos, o Perugia alça a bandeira branca. A cidade e os torcedores sofrem - mas quem se esforçaria para salvar uma sociedade alheia? (Ansa)
Uma fábula mais que centenária acabou, no dia 20 de maio de 2010. De novo. Pela segunda vez em cinco anos, o Perugia, tradicional clube umbro, que disputou a Prima Divisione da Lega Pro nesta temporada, teve sua falência decretada pelo Tribunal de Perugia.
A bancarrota do clube perugino foi uma conseqüência direta da também falência de sua proprietária, a imobiliária Mas, comandada pelo último patrono do Perugia, Leonardo Covarelli. Agora, a prefeitura e os empreendedores da cidade tentam se mobilizar para salvar o que ainda pode ser salvo.
Dentro de vinte dias acontecerá um leilão, no qual o pacote societário poderá ser resgatado por uma nova propriedade; nesse caso, o clube se manteria na Prima Divisione se efetuasse sua inscrição no prazo previsto em regulamento. Se não houver comprador, a cidade terá até o dia 30 de junho para formar uma nova sociedade e inscrever um novo clube. E o Perugia, que em seus melhores tempos chegou a ser vice-campeão da Serie A (1978-79, temporada em que terminou invicto) e viajar várias vezes pela Europa, inclusive sendo campeão da UEFA Intertoto, em 2003, teria de recomeçar sua vida entre os amadores.
A triste realidade era, de certa forma, previsível. Desde sua primeira falência – que aconteceu após a Serie B de 2004-05, quando o clube perdeu a final dos play offs de acesso para o Torino, que também faliria – o Perugia vinha lutando com dificuldade. No terreno de jogo, o clube, entre a ex-C1 e a atual Prima Divisione, conseguiu apenas um resultado expressivo, em 2007-08, com a classificação para os play offs de acesso à Serie B. Em seus gabinetes, o clube umbro não conseguia encontrar uma solução a longo prazo para seus problemas financeiros, chegando a ter quatro patronos diferentes nos últimos cinco anos.
Nas últimas semanas, o caos se instalou definitivamente. A equipe, desmotivada pela falta de pagamentos, perdeu quaisquer possibilidades de alcançar os play offs e, por pouco, não condenou o clube à disputa dos play outs – o que, na queda de rendimento que o time atravessava, significaria “meio rebaixamento”. Nos bastidores, hipotizava-se de tudo para tentar salvar o clube: a venda do título à prefeitura (que faria a transição para um eventual interessado), uma possível cessão da sociedade a um grupo árabe – algo que nunca foi confirmado – e até um programa de acionario popular, de baixíssima aceitação, chamado Io sto con il Grifo. Nada deu certo.
Nos últimos dias, já em agonia, o clube travou um autêntica guerra especulatória contra si próprio, lançando a esmo comunicados à imprensa que eram prontamente desmentidos por sua propriedade. No último deles, falava sobre mais uma tratativa de cessão que seria mal sucedida, a ponto de declarar que, no mesmo dia 20 de maio em que viu sua história desaparecer, seriam depositados documentos que provariam a integridade financeira da nova compradora. A documentação foi enviada, mas não a tempo de evitar a repetição da história: o Perugia, mais uma vez, está falido; e, mais uma vez, morreu em meio à total indiferença de pessoas que, agora, mostram-se dispostas a ajudar, mas que, de alguma maneira, já poderiam ter tentado salvar o clube.
Também esta uma situação pesarosa, mas esperada. Desde seu início, o futebol moderno, mais do que conduzir os clubes à profissionalização plena, tem destruído a identificação dos mesmos com suas praças de origem. Não se pretende isentar de culpa administrações que têm sido, para dizer o mínimo, embaraçosas, nem repudiar o profissionalismo; mas, tão somente, dizer que a mudança de um clube para uma sociedade – seja por ações ou por cotas de responsabilidade limitada – tem transformado o sentimento coletivo em um negócio particular.
É evidente que o título de um clube da história e da torcida do Perugia, falido, em uma divisão amadora, interesse muito mais, em termos de negócio, do que o resgate de um clube problemático, em uma categoria profissional. Os motivos são vários, mas citamos apenas três. Primeiro: os investimentos iniciais seriam incomparavelmente menores, uma vez que seria constituída uma nova sociedade e sua nova propriedade não precisaria arcar com débitos anteriores. Segundo: a perspectiva de alcançar resultados positivos a curto prazo seria muito maior em campeonatos de nível técnico modesto do que numa competição profissional. Terceiro: a nova propriedade ganharia muito em imagem e relações públicas; a possibilidade de guiar um clube à Seconda Divisione após vencer seguidamente o campeonato de Eccellenza e a Serie D criariam um clima positivo na praça, endossariam um trabalho sério e empenhado para a reconstrução da equipe, atrairia patrocinadores e geraria mais vendas de abonamentos e produtos.
Exemplos recentes não faltam para essa dinâmica. O Pisa não foi salvo, no começo da temporada, para ser prontamente reconstituído após sua falência e voltar à Seconda Divisione como campeão de seu grupo, na Serie D. A Lucchese, que ainda festeja seu retorno à Prima Divisione, foi refundada há dois anos, e apenas na Serie D – na época, seus torcedores chegaram a propor uma frente de mendicância para salvar o clube. A Massese, falida há dois anos, inscreveu um time às pressas na Serie D, e só após ter sido rebaixada (com apenas quatro pontos marcados) e ter seu pacote leiloado, sem compador, em três sessões, foi refundada, no torneio de Eccellenza, onde milita atualmente e faz boa campanha. Mais acima na hierarquia do futebol italiano, lembra-se que De Laurentis poderia ter adquirido o Napoli já em 2004, na Serie B, mas preferiu recomeçar na antiga C1.
Por tudo isso, o clube, constituído em sociedade, deixa de ser o que era, em essência: um patrimônio de sentimentos, que representa uma cidade e sua gente, que exprime seus sentimentos, sua história e sua cultura, e passa a ser um negócio de particulares. Talvez por isso, as torcidas italianas de província, cada vez mais, estejam cantando as músicas tradicionais de suas cidades e torcendo em dialeto. Algo que, por enquanto, a gente de Perugia não pode fazer: vítimas reincidentes do futebol moderno e dos riscos de negócio que ele compreende, estão sem clube, sem história e sem identidade.
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